Neste episódio do canal “Dança sem filtro”, a apresentadora Carla recebe o Professor Alan Kardec Torres para uma conversa profunda sobre a riqueza da cultura popular, a presença do folclore nas escolas e os impactos terapêuticos da dança na vida dos praticantes.
1. A Trajetória de Alan Kardec Torres e a Paixão pelo Folclore
Nascido no Piauí e criado no Pará, Alan Torres começou sua caminhada na dança ainda no Ensino Fundamental. Atuou na Companhia Vale do Rio Doce no Pará e integrou o grupo de pesquisa cultural Quarup, com o qual realizou turnê pela Europa em 1994 apresentando danças populares brasileiras. Em 1997, mudou-se para São Paulo para estudar e percebeu a necessidade urgente de levar o conhecimento das manifestações folclóricas para as salas de aula e instituições de ensino.
2. Preservação Cultural: Tradição Local vs. Centros Urbanos
O diálogo contrasta a vivência das danças nas regiões de origem e nos grandes centros urbanos:
- Vivência regional: No Norte do país, ritmos como o Carimbó no Pará continuam enchendo salões e mantendo forte apelo popular.
- Resistência nos grandes centros: Em cidades como São Paulo, as manifestações tradicionais muitas vezes ficam restritas a nichos. Destaca-se o trabalho de mestres como Tião Carvalho no Morro do Querozene, que preserva tradições maranhenses como o Cacuriá, o Tambor de Crioula e o Bumba Meu Boi.
3. Manifestações Regionais: Bumba Meu Boi vs. Boi Bumbá
Um dos destaques do vídeo é a diferenciação das manifestações ao redor do boi pelo Brasil:
- Boi Bumbá (Parintins/Amazonas): Apresenta caráter mais alegórico e espetacular, focado na disputa coreografada entre os bois Caprichoso e Garantido no Bumbódromo.
- Bumba Meu Boi (Maranhão): Possui riqueza de sotaques e variações rítmicas e musicais, como o Boi de Zabumba, Boi de Matraca e Boi de Orquestra.
- Simbolismo e Origens: A tradição une a dimensão religiosa (com o batizado e o ciclo dos santos juninos até São Marçal, que simboliza a ressurreição do boi em 30 de junho) e o auto popular de Catirina, Pai Francisco, o dono da fazenda e o Pajé, representando a miscigenação e a formação da sociedade brasileira.
4. A Dança na Educação Escolar
Alan Torres critica a repetição engessada de datas comemorativas nas escolas — como a limitação das festas juninas à quadrilha tradicional — e propõe o conceito de “brincar de dançar”:
- Portas de entrada: O uso de ritmos contemporâneos ou urbanos (como o forró universitário) pode servir como ponte lúdica para, em seguida, apresentar aos estudantes ritmos tradicionais como o Xote, o Araruna, a Congada e o Carimbó.
- Resultados pedagógicos: O professor relata o caso de um grupo escolar em São Bernardo que começou com o forró e evoluiu para representações folclóricas tradicionais, chegando a se apresentar no Chile e no Festival de Folclore de Olímpia.
- Interdisciplinaridade: As danças populares dialogam com disciplinas como História, Geografia e Educação Física (alinhadas à BNCC), além de desenvolverem coordenação motora — exemplificado pelo uso de passos do Frevo para o aprimoramento de atletas de voleibol.
5. Saúde, Inclusão e Terceira Idade
A prática da dança é apresentada como elemento de transformação emocional e física em idosos, tema abordado em livro do professor:
- Casos práticos: Uma aluna diagnosticada com degeneração corticobasal apresentou melhora significativa na disposição e mobilidade ao frequentar as aulas. Outra aluna, usuária de prótese ocular que temia andar na rua, recuperou a autonomia e o equilíbrio corporal.
- Foco no bem-estar: A prioridade da atividade é a promoção da alegria, do movimento e da socialização, em vez da busca por performance técnica perfeita.
6. Danças Circulares Brasileiras e Cultura de Massa
O episódio aborda as publicações do professor, como o livro “Gira Brasil”, focado em catalogar danças de roda nativas do país (como Ciranda, Carimbó e Araruna):
- Cultura de Massa vs. Cultura Popular: O mercado valoriza figuras de grande porte comercial (como Roberto Carlos), enquanto mestras tradicionais — como Dona Teté do Cacuriá e Selma do Coco — muitas vezes necessitam de reconhecimento posterior para ganhar visibilidade na mídia.
- Combate a Preconceitos: Alan e Carla ressaltam a importância de compreender o contexto das danças para evitar julgamentos ou erotizações precipitadas, citando o caso do Cacuriá, que surge de forma festiva e profana após os rituais religiosos da Festa do Divino.